Presente em três Mundiais, o gaúcho fala da dificuldade para
atingir o objetivo, reafirma o amor à atividade, admite erros e defende a
profissionalização da arbitragem
Quando o mundo se rendia à Seleção Espanhola na África do Sul, em 2010,
o coração de Carlos Eugênio Simon doía um pouco. Afinal, ele chegou a
ser cotado para apitar a final, e isso não ocorreu. Mas o gaúcho da
cidade de Braga tinha outros motivos para comemorar: encerrava ali uma
trajetória histórica. Simon é o árbitro brasileiro recordista em
participações em Mundiais: tem no currículo três Copas do Mundo (2002,
2006 e 2010).
Histórias não faltam a quem teve de advertir David Beckham por jogar no
chão uma bandeirinha de escanteio durante partida no Japão, passou
aperto de perder o ônibus para a preparação física na Alemanha e teve de
ser revistado antes de um jogo que poderia ser alvo de Osama Bin Laden,
na África do Sul.
Com 27 anos de carreira, Simon afirma que começou por acaso e repudia a
visão de que juiz é jogador frustrado. Nessa entrevista ao Portal da
Copa, fala do amor à atividade, admite erros e defende a
profissionalização do que considera o lado mais fraco do futebol.
Atualmente trabalhando como comentarista de televisão, ele mostra outra
visão do esporte: a de quem comanda o jogo e está sempre no centro de
críticas e polêmicas, mas é peça igualmente necessária.
Confira os principais trechos:
Início ao acaso
Eu morava no interior e queria ser jogador de futebol. Quando cheguei a
Porto Alegre, com 17 para 18 anos, até fiz testes no Grêmio, no
Internacional, mas é muito difícil chegar e entrar direto com essa
idade. Depois tentei outras equipes, consegui, mas como trabalhava e
estudava, deixei o futebol de lado.
No primeiro ano do segundo grau, em 1984, teve um campeonato organizado
pelo grêmio estudantil e minha equipe saiu da competição. Só que não
tinha quem apitasse a decisão. Sugeriram meu nome e acabei aceitando.
Foi um sábado pela manhã, fiz o cartão amarelo de papelão, o cartão
vermelho de papelão e apitei, com os conhecimentos mínimos que tinha.
O professor de educação física Luiz Cunha Martins, na época árbitro da
federação gaúcha e da CBF, veio atrás de mim e disse: “Simon, vi você
apitando e você leva jeito. Por que não faz um curso na federação?” Fiz.
Isso me permitiu apitar em Porto Alegre e na região metropolitana. Em
1986, fiz outro curso para apitar em todo o estado. E de lá para cá não
parei mais.
Estudo, trabalho e arbitragem
Fiz vestibular para jornalismo, entrei na faculdade em 1988 e me formei
em 1992. Foi difícil conciliar, porque eu trabalhava, estudava e
apitava, e isso me custou vários anos da minha juventude. Às vezes saía
para apitar no interior do estado na sexta e só voltava na segunda.
Fiquei anos no futebol amador, de 1984 a 1990. Isso me deu uma
experiência boa. O futebol amador é aguerrido, disputado, o árbitro tem
que ter muito jogo de cintura.
Primeiras competições importantes
Em 1991 comecei a apitar o campeonato gaúcho. Apitava segunda divisão,
depois primeira e comecei a crescer Na arbitragem. Eu levava vantagem
porque gostava de jogar futebol. Eu evitava conflito com jogador, levava
na boa, conversava, não dava bola para as questões pequenas. O árbitro
tem que se preocupar com as questões grandes e com as médias. Não tem
que entrar em campo de lupa, não tem que procurar pelo em ovo. Essas
coisas pequenas têm que passar batido.
Árbitro FIFA
Em 1995, fui nomeado árbitro aspirante à FIFA e fui convidado para
apitar o campeonato paulista. Em 1997, consegui atingir o quadro da
FIFA. Mas aí já estava apitando no Brasil todo, decisão de campeonatos
regionais. Apitei minha primeira final de Brasileiro em 1998. Foram dois
dos três jogos: a primeira partida de Cruzeiro e Corinthians no
Mineirão e depois o terceiro jogo no Morumbi. Isso me deu projeção
nacional.
Aí comecei a me preparar melhor. Fui deixando meus empregos e só
continuei na TV Guaíba, em Porto Alegre, no programa Pergunte ao Simon.
As pessoas faziam perguntas e eu respondia uma vez por semana, para
manter um salário. A partir de 2000 não dava mais. Fui apitar a
Olimpíada na Austrália, já era requisitado no Brasil e no exterior e
passei a viver praticamente da arbitragem.
Frame de vídeo
"A Copa é o evento máximo. Você deixa de ser o Simon do Rio Grande do Sul, passa a ser o Carlos Simon do Brasil"
Copa 2002 – Coreia do Sul e Japão
Naquela época havia grandes árbitros: o Antônio Pereira, o Oscar Godói,
era uma disputa fraterna. Eu era o mais jovem, mas até pelo meu
desempenho na Olimpíada veio o convite. Aí fui chamado para participar
dessa maravilha que é a Copa do Mundo, que para o árbitro também é o
maior sonho.
A Copa é o evento máximo, você está lá representando o país. Deixa de
ser o Simon do Rio Grande do Sul, passa a ser o Carlos Simon do Brasil.
Quando está tocando o hino dos países, naqueles segundos que antecedem o
jogo, passa um filme da sua vida: saí lá do Braga e hoje estou aqui no
centro mundial do futebol, e milhões de pessoas estão assistindo. A
responsabilidade de comandar o jogo é tua.
E logo a primeira partida foi um clássico europeu: Inglaterra 1 x 1
Suécia, um negócio de louco. Teve uma cena engraçada. O Beckham foi
bater escanteio, tirou a bandeirinha e colocou no chão. Não pode! Aí fui
lá e adverti o Beckham e pedi para ele colocar de volta. Os marmanjos
vieram falar que afinei para o Beckham e as moças reclamaram. O
importante é lembrar que a regra é igual, não interessa valores que eles
recebem nem as potências que estão ali. Você está ali para apitar a
regra.
Depois apitei Itália 1 x 1 México... Até essa Copa a FIFA tinha uma
regra que se seu país passasse de fase, você voltava pra casa. Mas tive a
felicidade de ficar e acompanhar até o final da competição, embora o
Brasil tenha chegado à final. Foi um orgulho enorme.
Novas exigências
A FIFA mudou tudo em 2004. A comissão de arbitragem, os testes. Foi um
processo mais difícil. Começou a exigir conhecimento de outro idioma e é
difícil papagaio velho aprender a falar. Cheguei a ficar um mês em
Toronto para estudar focado nas regras do jogo. A FIFA preparou uma
prova, com 25 questões em Inglês, eu acertei as 25. A exigência física
aumentou muito, o árbitro tinha que ser atleta. Tive que treinar muito.
Copa 2006 - Alemanha
A idade já começava a cobrar, mas com sacrifício passei nas provas.
Nessa Copa, fui acompanhado do Aristeu Leonardo Tavares e do Edimilson
Corona, porque o árbitro passou a indicar os assistentes, antigamente
era a confederação que indicava. Se um assistente não passa no teste
físico, o trio está fora, então é uma responsabilidade imensa. Mas os
dois passaram e fomos.
A pontualidade e o preciosismo dos alemães chamaram a atenção. Teve um
episódio interessante. Fazíamos aulas com psicólogos das 8h às 8h45 e,
na sequência, saía o ônibus para o treinamento físico. Um dia atrasou um
pouco a aula. Aí, quando a gente chegou ao hotel procurando o ônibus,
ele já tinha saído. Foi com um cara só. Perguntaram para o motorista e
ele falou: “Disseram que era para sair 9h e eu saí”. Aí teve reunião e
sobrou para os psicólogos, porque lá horário é horário.
Apitei Itália 2 x 0 Gana, Espanha 3 x 1 Tunísia, e uma partida de
oitavas de final no estádio mais bonito que conheci até hoje (Allianz
Arena, em Munique): Alemanha 2 x 0 Suécia. Deu um frio na barriga, era a
poderosa Alemanha, ainda marquei um pênalti contra a Alemanha, mas faz
parte. Você tem que saber da sua responsabilidade.
Copa 2010 – África do Sul
Eu já tinha 44 anos. O corpo cobrava ainda mais. A FIFA pré-selecionou
dois, eu e o Sálvio Fagundes. Aí teve aquela competição toda, teste
físico, teórico. Fui apitar o Mundial de Clubes de 2009, apitei jogo do
Barcelona e fui apitando jogos decisivos. Fiquei no olho do furacão.
O pessoal só vê os tombos que você leva, não vê as pingas que você
toma. Mas fui trabalhando com respeito, sabendo as minhas
responsabilidades, debatendo o futebol, tomando posição. Isso tudo pesa
nesse contexto. Aí acabei indo para a Copa de 2010, minha última.
Apitamos dois jogos – eu, Altemir Hausmann e Roberto Braatz –, que
foram Inglaterra 1 x 1 Estados Unidos e Alemanha 1 x 0 Gana. Esse
primeiro foi um jogo em que havia temor no ar, porque o Osama Bin Laden
chegou a ameaçar jogar uma bomba no estádio. Eram duas potências
inimigas dele reunidas. Foi a primeira vez que fomos vistoriados. Cruzei
com o vice-presidente dos EUA no corredor. Com o bom trabalho, fomos
inclusive cotados para a final. Acabamos não apitando, ficou um
pouquinho de frustração, mas foi um Mundial muito bom.
"A falibilidade faz parte do ser humano. Perfeito, só o patrão lá de cima"
Bicudo e Simon, em recente encontro em Porto Alegre.
Satisfação
São indescritíveis os momentos que você vive, o que o fato de ser
árbitro de futebol te proporciona. Não tem nada a ver essa história de
que árbitro é jogador frustrado. Tentei ser jogador, não deu, mas fui
árbitro e tive uma carreira vitoriosa. Sempre entrei em campo com paixão
e sempre desfrutava muito. E ser árbitro te possibilita estar em campo
com um Messi, um Ronaldo Nazário, um Zidane, um Romário, os grandes
astros.
Fim da carreira
Terminei a carreira no fim de 2010. Eu tinha 45 anos, idade-limite para
árbitro da FIFA. Apitei a final da Copa do Brasil ente Santos e
Vitória, a final da Supercopa (Estudiantes x LDU) na Argentina e o jogo
decisivo do Brasileiro, entre Fluminense e Guarani. Não apitei a final
da Sul-americana porque tinha equipe brasileira envolvida e a final da
Libertadores também. Então veja, você terminar uma carreira com 1.198
jogos apitando três decisões, podendo apitar cinco, realmente é um
orgulho enorme.
Profissionalização
Sempre fui defensor fervoroso da profissionalização da arbitragem. É um
absurdo que no futebol – que envolve milhões e milhões de dólares – o
lado mais fraco seja o árbitro. E no Brasil ainda tem o sorteio. Sou
totalmente contra. Acho que tem que ser bancada a responsabilidade da
indicação. A aprovação na Câmara da regulamentação da profissão do
árbitro é o primeiro passo (o projeto ainda volta ao Senado). É
inadmissível que o árbitro ainda seja uma figura amadora, embora seja
cobrado como profissional.
É fundamental dar apoio e incentivar o árbitro, porque não é fácil. O
torcedor não quer saber se o árbitro é jornalista, advogado ou
desempregado. O torcedor quer saber por que ele não deu aquele pênalti,
porque não marcou o impedimento.
Erros
Se voltasse atrás, claro que mudaria atitudes. A falibilidade faz parte
do ser humano. Já reconheci erros publicamente, mas toda profissão está
sujeita a erro. Perfeito só o patrão lá de cima. O árbitro é o lado
mais fraco da engrenagem do futebol, então é muito mais fácil o
dirigente, o técnico colocar a culpa na arbitragem, a imprensa também. A
crítica é muito maior. Quem defende o árbitro? Só a família dele.
Tecnologias no futebol
Sou favorável às tecnologias que já existem até agora: a bandeira
eletrônica, o ponto eletrônico, o placar eletrônico dos acréscimos e
agora a tecnologia da linha do gol – ou a bola com o chip ou a outra das
câmeras - desde que seja 100% confiável e instantânea. Se foi gol, tem
que ser dado. Humanamente é impossível ver. O árbitro ou o assistente
não têm essa percepção.
Quanto à questão de você olhar no vídeo e tomar decisão, não sou
favorável. Aconteceu comigo: jogo decisivo, em 2008, valia vaga na
Libertadores, Cruzeiro x Flamengo. O Diego Tardelli do Flamengo pisa na
bola e cai aos 93 minutos na área. O zagueiro do Cruzeiro, Fortunato,
não encosta nele. Pelas câmeras de televisão, era pênalti. Eu não dei o
pênalti. Ele pisou na bola e caiu, eu estava a três metros do lance. O
jogo foi 3 x 2 para o Cruzeiro. E a emissora não tinha essa imagem.
No dia seguinte, outra emissora mostrou um ângulo invertido. E aquela
imagem mostrava. Imagina se eu paro o jogo para olhar no monitor e vejo
que é pênalti. No dia seguinte, olho outro ângulo e vejo que não é. Não
dá. E, mesmo assim, olhando outros lances, para mim é pênalti, para ti
não é. Quando é matéria interpretativa, não tem que ter tecnologia, tem
que ficar a critério do árbitro.
Visão de comentarista
Sou jornalista, pós-graduado em Educação Física e tive vivência de 27
anos como árbitro, o que me dá essa condição. Evidentemente estou
aprendendo com os mais experientes. E quando comento arbitragem, procuro
ver o lado do árbitro. Existe o jogo do campo e o jogo da televisão.
Tem que comentar o jogo que o telespectador está vendo. Se a televisão
mostrou que é pênalti, é pênalti. Por que o árbitro não deu? Aí entra a
minha experiência. Ele estava mal posicionado, cansado, fora de forma...
sempre com tranquilidade, analisando o lado profissional, jamais o
pessoal. Estou adorando a experiência.
Fonte: Carol Delmazo – Portal da Copa